Já cheguei ficando nu, de acordo com o novo hábito que desenvolvi. Um dia consideravelmente bom. Tirando alguns afazeres que não realizei, o resto está ótimo. Fui dar minhas aulas, mais tranquilo que de costume. Meu querido aluno, que estava de viagem ao exterior, trouxe de presente um monte de palhetas e, pela primeira vez, acertaram exatamente a que eu uso. Obrigado, Guilherme Marinho. Você sabe como puxar o saco... rs, zueira, você é como aluno é um excelente amigo. Foi o melhor presente que eu ganhei esse ano, juro!
Mas o assunto tem que ser específico e eu quero retratar a fragilidade humana. Eu estava no ponto de ônibus, na Savassi, depois de um breve encontro, quase nada pornográfico. E comecei a observar as pessoas. Dentre elas, duas garotas de colégio, acho que do Sto. Antônio. Estavam lá, esperando como eu. Mas eram frágeis e vulneráveis. Uma conversando com a outra, mas era perceptível a insegurança que transmitiam. Nada espertas, com os celulares a vista. Algum tempo passou e, a que eu achava mais ‘fraquinha’, ficou lá sozinha. Passou a ser o meu ‘objeto’ de estudo. A carinha semi-preocupada, meio que perdida em sua constituição noviçal. Não que eu seja grandes coisas, mas tenho mais capacidade de sobrevivência do que ela. Enfim, todos os ônibus passaram e, por exclusão, notei que aguardava o mesmo que eu. Passou mais um tempo e ela retirou o celular e ligou para alguém. Explicou-se com uma voz de garotinha: “é que eu estou aqui no ponto e ônibus não passou até agora” e, mal tinha dito isso, o ônibus chegou. Ela entrou na frente e eu atrás. Pude reparar de perto sua fraca constituição. Quando chegou a hora de descer, uma nova cena se fez, primeiro observei (estava nos bancos altos, perto da saída, e ela ficou perto do trocador, mas do lado do motorista) que trocou de lado, passando para a lateral direita do ônibus. Depois, ficava olhando pelo corredor para ver a direção que o transporte tomava. Em seguida, levantou-se e ficou mais atenta, mas com o típico ar de perdida estampado na face. Puxou a corda do sinal e foi para a saída, logo perto de mim. Prestei mais atenção aos seus traços angelicais e continuei o estudo. Uma outra pessoa, uma senhora, levantou-se e ficou na porta esperando o veículo parar. Ao estagnar-se o transporte, a mulher mais velha desceu e a menina ficou parada a olhar para os lados. Quando o motorista já ia arrancando, ela desceu os degraus, ainda com muita dúvida, e saiu. Se o trocador não tivesse pedido para o motorista esperar, teria fechado a porta na pobre jovenzinha. Ouvi o motorista dizer lá da frente para todos que pudessem ouvi-lo: “Eu, hein?! Essa eu não entendi” Eu completei em voz alta: “acho que está perdida”. O incrível disso tudo, que eu vim a perceber alguns minutos depois, é que eu estava de certa forma, atento por ela. Como se estivesse esperando uma oportunidade de cuidar daquela criança. E tendo esse pensamento, me dei conta de quem sempre ajo dessa maneira. Creio que é instintivo, mas é até elegante. Achei legal da minha parte, mas parecia algo que eu teria por obrigação fazer. Reconhecendo a fragilidade daquela menina eu, mesmo que também frágil, tomei a ocupação de protetor. Taí uma coisa que não havia notado no meu cotidiano.
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