Voltei triste para casa, minha noite foi perdida. Gosto dela, mas não sei lidar com seus problemas. Não entendo seu jeito, não sei o que gosta e principalmente, não consigo lhe agradar. No entanto, não estou me sentindo desesperado para escrever – embora a necessidade nunca me abandone. Voltei cedo, não era nem uma da manhã ainda. Estava aqui por perto de casa. Ela quis ir embora quando chamei de covarde as pessoas que se matam. Ela os defendeu dizendo que eram pessoas que sofriam demais e que tinham suas razões. Continuo discordando. Mas foda-se. O que um dia minha opinião valeu? Ela ligou para o amigo, que por um acaso mora perto da minha casa, e se foi para beber com ele. Será que ela gostaria mais de mim se eu bebesse?
Entrei dentro de casa, conferi se os cães estavam bem, fui até a cozinha e peguei no vitrô (não achei essa palavra no dicionário, mas sempre a usei) um resto de charuto (dos mais vagabundos) e fui lá para fora fumar. Meus cães mantiveram distância enquanto fumava. Fiquei tentando fazer anéis de fumaça com aquele resto de charuto forte e velho. O pedaço era pequeno e não demorei mais do que dez minutos para fumá-lo. O efeito ficou, estou aqui escrevendo semi-entorpecido. Uma sensação de relaxamento. Ela lá bebendo e eu aqui fumando. Ao menos me sinto melhor. Sabe, gosto daquela menina e nem sei por que. Mas gosto. Acho que a Stella está com razão: só gosto dela porque ela não se interessa por mim. Perguntei isso pra ela hoje. Ela disse que gosta, mas que é fria e tímida. Prefere só conversar a ter contatos.
O engraçado disso tudo, é que eu sei que não preciso dela. Sei que não quero, mas acredito que pelo fato de ela ser tão complicada pra mim, me faz querê-la ainda mais. Enquanto voltava pra casa, a passos de lesma e refletindo, pensei em não mais procurá-la. E agora escrevendo isso, sinto coragem dentro de mim pra fazer isso. Melhor agora do que ficar me martirizando depois. O que queria na verdade é que ela se importasse comigo, mas tenho a (quase) absoluta certeza que se não falar com ela, não terei mais notícias suas. Que assim seja. Se uma coisa eu aprendi nesses anos todos de vida (e vai tomar no cu agora quem vive me zuando sobre minha idade, ser velho tem suas vantagens) é aceitar uma rejeição. E olha que nem fui realmente rejeitado, só me senti assim.
Pra terminar, vou deixar aqui o registro do que mais me magoou a noite inteira: “seu cabelo tem cheiro de cachorro”. Meu cabelo pode ter até cheiro de merda, mas eu não penso merda. E levando em consideração que eu gosto mais dos animais do que das pessoas, acho que isso é um baita elogio. Detalhe: eu lavei minha cabeça hoje mesmo antes de sair de casa. A Stella, que me encontrou hoje mais cedo e com quem eu falei sobre isso, disse que meus cabelos estavam cheirosos. Vai saber. De qualquer forma, podemos usar a “Gaga” para rastrear drogas em aeroportos, seu olfato se compara ao dos perdigueiros.
Magoado fiquei e magoado estou, mas ainda tenho um consolo: muitas palavras...
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